• Prof Dr Alan Hatanaka

O Parto Interdisciplinar ou Nascimento Interdisciplinar. Você Sabe o que é isso?

Updated: Dec 16, 2021

Para qualquer família o nascimento de um filho é o momento mais magnífico da vida. Por este motivo, é natural que o casal busque informações para que a experiência da chegada de uma nova família seja perfeita. Entretanto, o excesso de informações pode gerar confusão, principalmente porque muitos dados disponíveis na internet são incorretos.

O nascimento não começa com as contrações, mas sim no "muito prazer, meu nome é Alan...". O primeiro ponto para uma experiência de parto perfeita é a confiança. Debitar a um médico a responsabilidade da vida do filho é uma decisão extremamente difícil. Cabe a ele fornecer todas as informações necessárias para que o casal tenha segurança total até o final da gestação.

Estudos demonstram que os dois principais medos da mulher em relação ao parto normal são: (1) a dor do parto; (2) a segurança do bebê.

Mostrar e explicar dados científicos é fundamental para reduzir estas angústias. O Colégio Americano de Ginecologia e Obstetrícia demonstra que o parto normal conduzido adequadamente não aumenta a taxa de intercorrências para o bebê quando comparada a cesárea. Também sugere que, frente ao medo materno das dores do parto, seja oferecida a analgesia de parto (ACOG Committee Opinion No. 761: Cesarean Delivery on Maternal Request; Obstet Gynecol. 2019 Jan;133(1):e73-e77. doi: 10.1097/AOG.0000000000003006).

Se por um lado concordo com a segurança do parto normal em comparação a cesárea (obedecendo todos os preceitos de segurança preconizados pela OMS), discordo do pragmatismo do Colégio Americano em simplesmente oferecer analgesia farmacológica. É neste ponto que a interdisciplinaridade se faz fundamental.

Mas por que interdisciplinaridade e não multidisciplinaridade? Porque interdisciplinaridade significa a interação entre as especialidades envolvidas. Aqui neste artigo descrevo suscintamente o papel que cada profissional exerce no processo do nascimento.



A Fisioterapia Pélvica deve ser iniciada após o primeiro trimestre e gera inúmeras vantagens. Gosto muito de comparar a musculatura perineal a musculatura de um atleta olímpico. Há necessidade de ser forte e elástica para não ser lesada. O fortalecimento muscular é fundamental para sustentação dos órgãos pélvicos e para redução da chance de incontiniencia urinária. A elasticidade é trabalhada após 34 semanas, principalmente através das massagens perineais (que possuem comprovação científica de benefícios) e do Epi-No.

Além de todos esses benefícios, a mulher torna-se mais confiante em relação ao parto vaginal, desmistificando a questão da lesão perineal e da recuperacão pós parto. Ter controle da contração e do relaxamento perineal não é uma missão fácil (consciência perineal), mas é fundamental para saber a maneira correta de realizar a força quando chegar o momento.

O profissional de Nutrição é essencial para o controle do peso, reduzindo a chance de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional e bebê macrossômico (muito grande). Além disso, os conceitos mais modernos sobre o efeito Dohad, dão conta que a exposição a um ambiente saudável pode influenciar na epigenética deste bebê, que pode influenciar para o nascimento saudável.

Continuando no contexto do efeito Dohad, o Educador Físico tem relevância na equipe, pois os exercícios são extremamente saudáveis no período gravídico, mas devem respeitar limitações como não superaquecer o corpo, manter a frequência cardíaca inferior a 140 bpm, não realizar exercícios com risco de trauma abdominal e limitar o tempo do exercício aeróbico em 30 a 50 minutos. A gestante não deve suspender seus exercícios, mas sim adaptá-los.

A Enfermeira Obstetra tem papel central para reforçar e alinhar as estratégias para analgesia não farmacológica, humanização e aleitamento. Com sua sensibilidade diferenciada, ela estará muito próxima ao casal, atenta aos pequenos detalhes da parturição. Junto com o Dr Alan Hatanaka, ela irá acalmar o casal, dando as opções de analgesia não farmacológica para cada momento e auxiliando no uso delas. Algumas das opções são a bola de fisioterapia, banhos de aspersão e imersão, caminhadas, massagem e aromaterapia.

Após o nascimento do bebê, nossa equipe faz rotineiramente o clampeamento tardio do cordão umbilical, mas neste momento, quem auxilia a mãe a segurar o bebê para o contato pele a pele e na golden hour? A Enfermeira Obstetra estará lá para isso, dando segurança e apoio, além de auxiliar o neonatologista naquilo que necessita.

E como posicionar o bebê para amamentar? Como realizar a pega? Tenho leite? Será que ele já terminou de mamar? Nenhuma mãe nasce sabendo essas respostas e o auxílio da Enfermeira Obstetra nos primeiros momentos do nascimento e após 48 horas, faz muita diferença num momento tão especial e, ao mesmo tempo, tão suscetível. Nossa Enfermeira Obstetra é a Enf. Luciana Castello Branco, que inclusive me ensinou muito no nascimento dos meus dois filhos, ambos por parto normal. Conhecê-la antes do parto é muito importante para estabelecer a conexão e desenhar o dia do parto.

Quando as técnicas de analgesia não farmacológica, hypnobirthing e gentlebirth não forem mais suficientes, devemos ter a disposição o Anestesista especializado em Obstetrícia. A analgesia bem indicada e realizada por anestesista experiente, não prejudica o trabalho de parto. Os dados demonstram que o nascimento é atrasado em cerca de uma hora, mas não aumenta nenhum desfecho desfavorável ao bebê. A maior referência em evolução do trabalho de parto é o estudo realizado por Zhang J, que esyudou a evolução de mais de 62 mil parturientes (Zhang J et al; Contemporary patterns of spontaneous labor with normal neonatal outcomes; Obstet Gynecol. 2010 Dec;116(6):1281-1287. doi: 10.1097/AOG.0b013e3181fdef6e). Neste estudo, 80% das parturientes realizaram analgesia de parto, o que demonstra como este procedimento é encarado com naturalidade nos Estados Unidos. Nosso Anestesista é o Dr José Daniel Braz Cardone, chefe da Anestesiologia do Hospital do Rim e Hipertensão, médico com experiência de muitos anos na Obstetrícia.

Nenhum parto deve ser realizado por um médico apenas. Isso porque urgências e emergências podem surgir a qualquer momento e a equipe deve estar pronta para intervenções como um parto cesariano, fórcipe ou vácuo extrator. Também no momento de uma cesárea, podem surgir imprevistos como sangramento abundante, atonia uterina e acretismo placentário. Assim, o segundo Obstetra deve ser muito experiente e absolutamente conectado com a equipe. Meu parceiro de partos e cirurgias é o Prof Dr Roney Cesar Signorini Filho, chefe do setor de Onco-Ginecologia do Hospital Pérola Byington, médico associado do Departamento de Obstetrícia da Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo. Na Universidade é o responsável por todos os casos de gestações com alta complexidade cirúrgica.

Cabe ao Obstetra liderar toda esta equipe, além de conduzir o pré-natal com responsabilidade, empatia e humanização, explicando a fisiologia do parto, as fases da dor e os riscos inerentes a cada situação da gestação. Apesar de todas essas atribuições, a mais importante é estar em sintonia com o casal, tornando-os protagonistas do parto.

Reparem que raramente uso o termo dia do parto? Isso porque o dia do parto não é o dia mais importante da vida de uma família, mas o dia do nascimento de um filho é...

Muitas mulheres sentem-se pressionadas para ter um parto vaginal e podem se decepcionar quando o parto torna-se cesáreo, mesmo com indicação correta. É muito importante compreender que isso não irá acontecer se o médico estiver em sintonia com o casal, uma vez que as decisões serão divididas, baseadas em informações de literatura científica e com total respeito as individualidades.


Autor: Prof Dr Alan Hatanaka

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