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Células-Tronco do Cordão Umbilical: Coletar ou Não?
Imagem de placenta criada por IA pelo Dr Alan Hatanaka

Uma análise direta, baseada em evidências científicas, sobre os benefícios reais, as probabilidades de uso e o que as principais sociedades médicas recomendam. Veja as respostas para as 5 dúvidas mais frequentes no consultório.

A gravidez é um período de muitas expectativas e, naturalmente, de muitas perguntas. No ambiente do consultório, ao lado de temas como o tipo de parto e a amamentação, uma dúvida tem se tornado cada vez mais presente: vale a pena coletar e armazenar as Células-Tronco do Cordão umbilical do meu bebê?

A ideia de ter uma “reserva biológica” para o futuro é poderosa, mas é cercada de informações que nem sempre distinguem o marketing da realidade científica. Como seu obstetra, meu papel é oferecer segurança e clareza, traduzindo o que há de mais robusto na ciência para que sua decisão sobre as Células-Tronco do Cordão seja sólida e alinhada aos seus valores. A moderna Obstetrícia, que integra o cuidado materno e fetal com a mesma profundidade, exige essa transparência.

Para ajudar nesse processo, compilei as 5 perguntas mais frequentes que ouço de minhas pacientes sobre o tema, com respostas diretas e baseadas nas melhores evidências disponíveis.

1. Para que servem, exatamente, as Células-Tronco do Cordão? Existe uma lista de doenças com tratamento comprovado?

Sim, existe. O sangue do cordão umbilical é uma fonte valiosa de células-tronco hematopoéticas (CTH), que são as células precursoras do sangue e do sistema imune [1]. O uso dessas Células-Tronco do Cordão é uma terapia estabelecida e consolidada para mais de 80 doenças graves com tratamento comprovado [2]. As principais categorias incluem:

  • Doenças oncológicas do sangue: Leucemias, linfomas e mieloma múltiplo.
  • Falências medulares: Como a anemia aplástica severa.
  • Hemoglobinopatias graves: Anemia falciforme e talassemia major.
  • Imunodeficiências primárias e doenças metabólicas congênitas [2].

É crucial notar que o tratamento padrão para essas condições é o transplante com células de um doador saudável (alogênico), não as da própria pessoa. Isso nos leva diretamente à segunda pergunta.

Dr. Alan Hatanaka

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2. Se eu guardar para uso próprio (autólogo), qual é a chance real de precisarmos delas?

Esta é, talvez, a informação mais importante para a sua decisão. A probabilidade de usar as próprias Células-Tronco do Cordão é extremamente baixa. As estimativas científicas variam de 1 em 2.500 a 1 em 200.000 (ou seja, de 0,04% a 0,0005%) [2, 3].

O motivo principal é que, para doenças de origem genética ou leucemias infantis, as Células-Tronco do Cordão do próprio bebê já carregam o “defeito” ou as células pré-malignas que originaram a doença. Fazer um transplante com elas seria reintroduzir o problema no paciente [4]. Por esta razão, o armazenamento para uso próprio (autólogo) não é a solução para as doenças mais comumente associadas a essa terapia.

3. Banco Público ou Privado? Qual a recomendação das sociedades de especialistas?

Aqui, há um consenso científico global muito claro. As principais entidades médicas do mundo, como o Colégio Americano de Ginecologia e Obstetrícia (ACOG), a Academia Americana de Pediatria (AAP) e o Colégio Real de Ginecologistas e Obstetras do Reino Unido (RCOG), têm uma posição unificada sobre armazenar Células-Tronco do Cordão em banco público ou privado:

  • Elas não recomendam o armazenamento de rotina em bancos privados para famílias sem um risco conhecido [4, 5, 6].
  • Elas incentivam fortemente a doação para bancos públicos, como a Rede BrasilCord. Essa doação é anônima, gratuita e disponibiliza as células para qualquer paciente compatível no Brasil ou no mundo, sendo um ato de solidariedade que efetivamente salva vidas [4].

O armazenamento privado só é considerado uma opção lógica em uma situação muito específica: quando já existe um irmão na família com uma doença cujo tratamento comprovado seja o transplante de Células-Tronco do Cordão [5]. Neste caso, a chance de compatibilidade entre irmãos é de 25% [7].

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4. E as pesquisas para autismo e paralisia cerebral? O armazenamento não seria uma garantia para o futuro?

Este é um ponto sensível. Vemos um crescente interesse na medicina regenerativa e existem pesquisas promissoras, ainda em fases iniciais, para o uso de Células-Tronco do Cordão em condições como paralisia cerebral e autismo [8].

Contudo, é fundamental ter os pés no chão: atualmente, essas aplicações são consideradas investigacionais e experimentais. Não há aprovação para uso clínico de rotina fora de ensaios clínicos controlados. Armazenar hoje com base na promessa de uma terapia futura é uma aposta, não uma certeza científica. A International Society for Stem Cell Research (ISSCR) alerta para que os pacientes desconfiem de clínicas que oferecem esses tratamentos como se fossem curas estabelecidas [9].

5. Tenho que escolher entre o clampeamento tardio do cordão e a coleta das Células-Tronco do Cordão?

Não, e esta é uma questão de segurança e boas práticas. O clampeamento tardio do cordão umbilical (aguardar no mínimo 60 segundos) é uma recomendação formal da Organização Mundial da Saúde (OMS), da FEBRASGO e de outras entidades, por trazer benefícios comprovados e imediatos ao bebê, como a redução do risco de anemia [10, 11].

Um cuidado obstétrico de excelência prioriza a saúde do recém-nascido. A boa notícia é que a coleta de Células-Tronco do Cordão pode ser feita após o clampeamento tardio. O volume pode ser um pouco menor, mas geralmente ainda é suficiente [12]. Portanto, você não precisa abrir mão de um benefício concreto e imediato para o seu filho por uma possibilidade de uso futuro tão remota.

Dr. Alan Hatanaka

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Uma Escolha Bem-informada

Espero que estas respostas diretas tenham trazido mais clareza. A decisão final é sempre da família, mas ela deve ser pavimentada com informação de qualidade sobre as Células-Tronco do Cordão. A complexidade de temas como este reforça a importância de um acompanhamento pré-natal minucioso, onde o obstetra não apenas cuida da gestação, mas atua como um verdadeiro especialista em medicina fetal, utilizando o ultrassom e o conhecimento científico para garantir a segurança e o bem-estar da mãe e do bebê.

É nessa relação de confiança e diálogo que as melhores escolhas são feitas. Se você ainda tem dúvidas ou quer aprofundar a conversa, será um prazer ajudá-la.

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Referências Bibliográficas

  1. Ballen KK, Gluckman E, Broxmeyer HE. Umbilical cord blood transplantation: the first 25 years and beyond. Blood. 2013;122(4):491-8. DOI: 10.1182/blood-2013-02-453175
  2. Shenoy S, Eapen M, Walters MC. Hematopoietic stem cell transplantation for sickle cell disease: current practice and emerging trends. Blood Rev. 2013;27(4):171-180. DOI: 10.1016/j.blre.2013.05.001
  3. Waller-Wise R. Umbilical cord blood banking: an update for childbirth educators. J Perinat Educ. 2022;31(4):199-205. DOI: 10.1891/JPE-2021-0006
  4. American College of Obstetricians and Gynecologists. Umbilical cord blood banking. Committee Opinion No. 771. Obstet Gynecol. 2019;133(3):e249-e253. DOI: 10.1097/AOG.0000000000003128
  5. Shearer WT, Lubin BH, Cairo MS, Notarangelo LD. Cord blood banking for potential future transplantation. Pediatrics. 2017;140(5):e20172695. DOI: 10.1542/peds.2017-2695
  6. Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. Umbilical cord blood banking. Scientific Impact Paper No. 2. London: RCOG; 2020. Available from: https://www.rcog.org.uk/guidance/browse-all-guidance/scientific-impact-papers/
  7. Gragert L, Eapen M, Williams E, et al. HLA match likelihoods for hematopoietic stem-cell grafts in the U.S. registry. N Engl J Med. 2014;371(4):339-348. DOI: 10.1056/NEJMsa1311707
  8. Sun JM, Song AW, Case LE, et al. Effect of autologous cord blood infusion on motor function and brain connectivity in young children with cerebral palsy: a randomized placebo-controlled trial. Stem Cells Transl Med. 2017;6(12):2071-2078. DOI: 10.1002/sctm.17-0102
  9. Lovell-Badge R, Anthony E, Barker RA, et al. ISSCR guidelines for stem cell research and clinical translation: the 2021 update. Stem Cell Reports. 2021;16(6):1398-1408. DOI: 10.1016/j.stemcr.2021.05.012
  10. World Health Organization. WHO recommendations on intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: WHO; 2018. Available from: https://www.who.int/publications/i/item/9789241550215
  11. FEBRASGO, SBP. Recomendações sobre clampeamento tardio do cordão umbilical. 2022. Available from: https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/1446-recomendacoes-sobre-clampeamento-tardio-do-cordao-umbilical
  12. Allan DS, Scrivens N, Lawless T, et al. Delayed clamping of the umbilical cord: A systematic review of the impact on maternal and neonatal outcomes. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2022;271:1-7. DOI: 10.1016/j.ejogrb.2022.01.01