Compreender o que a ciência diz sobre os risco e benefícos do uso de antidepressivos na gravidez é o primeiro passo para o tratamento adequado e esclarecido
Atender pré-natal de alto risco não se trata de atender apenas intercorrências clínicas ou obstétrcias. Muitas pacientes possuem doenças menos discutidas e menos conhecidas, e a depressão é uma delas. O dilema entre cuidar da própria saúde mental e o medo de expor o feto a medicações é real e totalmente compreensível, e muitas mulheres questionam: “Doutor, essa medicação pode prejudicar meu bebê?”. A resposta, no entanto, não é um simples “sim” ou “não”, mas sim uma análise criteriosa de riscos e benefícios.
A Obstetrícia moderna, amparada por evidências científicas robustas, nos permite navegar por essa questão com muito mais segurança. O ponto de partida fundamental é reformular a pergunta: em vez de questionar apenas o risco do uso de antidepressivos na gravidez, precisamos comparar com o risco, já comprovado, da depressão não tratada.
Neste artigo, vamos analisar de forma honesta e transparente o que os estudos mais importantes nos dizem sobre a segurança do uso dos antidepressivos na gravidez, para que você, junto ao seu médico, possa tomar a decisão mais segura para você e seu bebê.
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Ponto de Partida: O Risco Inegável da Depressão Não Tratada
Antes de avaliar a segurança de qualquer tratamento, precisamos estabelecer o risco da doença em si. A depressão materna não tratada é um fator de risco significativo com consequências bem documentadas. A exposição crônica do feto aos hormônios do estresse e ao ambiente inflamatório gerado pela depressão está associada a desfechos adversos importantes, como parto prematuro, baixo peso ao nascer, restrição de crescimento e impactos no neurodesenvolvimento infantil [1,2,3]. Portanto, a decisão de não tratar também envolve riscos claros e significativos.
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Os Efeitos a Curto Prazo no Recém-Nascido: Uma Análise Transparente
A ciência é clara: a exposição aos antidepressivos ISRS (a classe mais comum) está associada a efeitos transitórios no recém-nascido. É meu dever como médico apresentá-los de forma transparente. A condição mais comum é a Síndrome de Adaptação Neonatal, que pode afetar até 30% dos bebês expostos e se manifesta por um conjunto de sintomas de curta duração.
Vamos aos dados:
- Adaptação Neonatal e Suporte Respiratório: O efeito mais consistente é uma adaptação mais lenta à vida fora do útero. Bebês expostos podem precisar de suporte respiratório na sala de parto com uma frequência significativamente maior (Odds Ratio ajustado de OR = 4.04). Eles também apresentam um risco duplicado de terem escores de Apgar mais baixos no quinto minuto de vida (OR = 1.96).
- Admissão em UTI Neonatal: Há um aumento no número de admissões em UTI Neonatal (OR = 1.5), principalmente para observação e manejo desses sintomas adaptativos.
- Hipertensão Pulmonar Persistente (HPPN): Embora o risco relativo seja o dobro (OR = 2.1), é fundamental entender o risco absoluto. A HPPN ocorre em cerca de 3 a cada 1.000 bebês expostos, em comparação com 1,2 a cada 1.000 na população geral. O risco existe, mas permanece baixo.
- Prematuridade e Peso ao Nascer: O uso de ISRS está associado a um maior risco de parto prematuro (Risco Relativo RR = 1.43) e a bebês com menor peso ao nascer.
- Relação Dose-Dependente: É crucial saber que esses riscos são dose-dependentes. Doses mais altas e sustentadas ao longo da gestação estão associadas a riscos maiores de prematuridade e desconforto respiratório.
Esses dados mostram que o uso de antidepressivos na gravidez exige um planejamento cuidadoso do parto. A recomendação, seguida por nós, é que o nascimento ocorra em um ambiente hospitalar com suporte de equipe neonatal, prevendo um período de observação de pelo menos 48 horas para o bebê.
E os Efeitos a Longo Prazo? A Evidência Sobre Autismo e Desenvolvimento Cognitivo
Após analisar os desafios de curto prazo, a grande questão passa a ser o futuro. E aqui, as notícias são majoritariamente tranquilizadoras. Estudos longitudinais que acompanharam crianças por anos indicam que o uso de antidepressivos na gravidez não está consistentemente associada a déficits cognitivos, de linguagem ou de funções executivas a longo prazo [4,5].
A polêmica sobre a ligação com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) também foi extensamente estudada. A conclusão atual é que, após ajustar para fatores como a gravidade da depressão materna, a maioria dos estudos não detecta uma associação causal significativa [6,7]. A “confusão por indicação” – onde os efeitos da doença grave são confundidos com os efeitos do remédio – parece ser o fator mais importante.
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Navegando a Decisão: A Parceria Estratégica entre Médico e Paciente
Diante de todos esses dados, como decidimos? A resposta está na medicina individualizada e na decisão compartilhada.
- Planejamento Proativo: Saber dos riscos de adaptação neonatal nos permite agir proativamente. Planejamos o parto em um hospital com estrutura de UTI Neonatal e alinhamos a conduta com a equipe de pediatria. Não somos pegos de surpresa.
- Monitoramento Fetal Especializado: A associação do uso de ISRS com lesões de má perfusão placentária e restrição de crescimento reforça a necessidade de um acompanhamento pré-natal com um obstetra que seja também especialista em Medicina Fetal. A realização de ultrassonografias detalhadas e Doppler para avaliar a circulação e o bem-estar do bebê torna-se uma ferramenta de segurança indispensável.
- A Menor Dose Efetiva: O princípio da dose-dependência nos guia a sempre buscar a menor dose capaz de manter a mãe em estabilidade emocional (eutimia), minimizando a exposição fetal.
- Contextualização do Risco: Meu papel é ajudar você a comparar o risco de 30% de uma síndrome de adaptação transitória e manejável com os riscos de longo prazo da depressão não tratada para o desenvolvimento cerebral do seu filho.
A decisão pelo tratamento é um ato de cuidado que visa garantir que a mãe esteja saudável para vivenciar a gestação e o pós-parto, criando o melhor ambiente para o seu filho. O medo não deve paralisar. Com informação, planejamento e um acompanhamento especializado, é possível tomar a melhor decisão para a saúde de ambos.
Agende sua consulta e vamos conversar sobre a melhor abordagem para você.
Referências Bibliográficas
- Oberlander TF, Warburton W, Misri S, et al. Effects of maternal depression on child development. JAMA. 2006;296(22):2385-94. doi:10.1001/jama.296.22.2385
- Kochueva M, Lebedeva E, Gorobets L, et al. Long-Term Effects of Maternal Depression during Postpartum and Early Parenthood Period on Child Socioemotional Development. Children (Basel). 2023;10(10):1718. doi:10.3390/children10101718
- Maternal and Neonatal Risks of Untreated Major Depressive Disorder in Pregnancy. Glob Med Res. 2025;5(2):1-12.
- Long-Term Effects of Intrauterine Exposure to Antidepressants on Physical, Neurodevelopmental, and Psychiatric Outcomes: A Systematic Review. J Clin Psychiatry. 2020;81(3):19r13160. doi:10.4088/JCP.19r13160
- Neurobehavioral Follow-Up of Children Exposed to Selective Serotonin Reuptake Inhibitors in Utero. Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2022;61(8):764-775.
- Ahmad F, Lone KP, Anwar S, et al. Role of Serotoninergic Antidepressants in the Development of Autism Spectrum Disorders: A Systematic Review. Cureus. 2022;14(8):e27390. doi:10.7759/cureus.27390
- Mezzacappa A, Lasica PA, Gianfagna F, et al. Antenatal exposure to antidepressant drugs and the risk of neurodevelopmental and psychiatric disorders: a systematic review. Cad Saude Publica. 2020;36(2):e00024419. doi:10.1590/0102-311X00024419