A coenzima Q10 na gravidez tornou-se um dos suplementos mais pesquisados por gestantes nos últimos anos. Promessas de prevenção de pré-eclâmpsia, melhora da saúde fetal e até aumento da inteligência do bebê circulam com facilidade nas redes sociais — frequentemente sem qualquer base científica sólida ou respeito à regulamentação sanitária vigente no Brasil. Neste artigo, apresento o que a ciência realmente demonstra, os problemas metodológicos do único estudo clínico randomizado existente e o posicionamento inequívoco da ANVISA sobre o uso desse suplemento durante a gestação.
O que é a coenzima Q10?
A coenzima Q10 (CoQ10), também conhecida como ubiquinona, é uma molécula lipossolúvel produzida naturalmente pelo organismo humano. Atua como componente essencial da cadeia de transporte de elétrons mitocondrial, sendo fundamental para a síntese de ATP — a principal moeda energética celular — e como antioxidante intracelular.
Sua produção endógena declina com o envelhecimento, e níveis reduzidos têm sido associados a diversas condições clínicas, como insuficiência cardíaca, miopatias e infertilidade. Isso justifica o interesse científico em sua suplementação — mas em contextos muito específicos, distintos da gestação estabelecida.
O único estudo clínico randomizado sobre CoQ10 e pré-eclâmpsia
Toda a argumentação favorável ao uso de coenzima Q10 na gravidez para prevenção de pré-eclâmpsia repousa sobre um único ensaio clínico randomizado, publicado em 2009 por Teran et al. no International Journal of Gynecology & Obstetrics (1). O estudo randomizou 235 gestantes de alto risco no Equador para receber 200 mg/dia de CoQ10 ou placebo, a partir de 20 semanas de gestação.
O resultado principal mostrou redução na taxa de pré-eclâmpsia: 14,4% no grupo CoQ10 versus 25,6% no grupo placebo (RR 0,56; IC95% 0,33–0,96; p=0,035).
À primeira vista, o dado parece promissor. Mas a leitura crítica do estudo revela limitações que impedem qualquer recomendação clínica segura.
Por que esse estudo tem problemas metodológicos graves?
Antes de qualquer interpretação clínica, é fundamental contextualizar o tamanho e as limitações desse estudo.
1. Tamanho amostral insuficiente para a realidade brasileira
O estudo foi conduzido em população de alto risco no Equador, com incidência local de pré-eclâmpsia de 20% — muito acima da média brasileira, que gira em torno de 3 a 5%. Se aplicássemos a incidência real de pré-eclâmpsia pré-termo (<37 semanas) — o desfecho clinicamente mais relevante, de aproximadamente 0,7% (2) —, em 235 gestantes esperaríamos estatisticamente menos de 2 casos por grupo. É estatisticamente impossível demonstrar eficácia ou segurança com esse número.
2. Comparação com o estudo ASPRE
Para dimensionar a diferença: o estudo ASPRE, que estabeleceu o uso de aspirina 150 mg/dia na prevenção de pré-eclâmpsia pré-termo, rastreou 26.941 gestantes no primeiro trimestre e randomizou 1.776 mulheres de alto risco (3). Os desfechos foram robustos: redução de 62% na incidência de pré-eclâmpsia pré-termo (OR 0,38; IC95% 0,20–0,74; p=0,004). Essa é a diferença entre evidência e hipótese.
3. Ausência de estudo de segurança fetal
Nenhum estudo avaliou os efeitos da CoQ10 sobre o feto, o desenvolvimento placentário, o crescimento fetal ou desfechos neonatais em gestações humanas. O estudo de Teran et al. não foi desenhado para avaliar segurança fetal — foi desenhado para avaliar um desfecho materno.
4. Ausência de replicação após mais de 15 anos
Em mais de 15 anos desde a publicação de Teran et al., nenhum segundo ensaio clínico randomizado de prevenção de pré-eclâmpsia com CoQ10 foi conduzido. Na hierarquia de evidências, um único RCT não replicado, com amostra pequena e sem estudos de segurança, é insuficiente para sustentar uma recomendação clínica.
CoQ10 e fertilidade: um contexto completamente diferente
Existe, de fato, evidência crescente sobre o uso de CoQ10 em reprodução assistida — especificamente em mulheres com baixa reserva ovariana submetidas a ciclos de FIV/ICSI. Uma meta-análise de 2024, com 6 RCTs e 1.529 participantes, demonstrou que o pré-tratamento com CoQ10 melhorou parâmetros ovarianos como número de oócitos recuperados, taxa de fertilização e qualidade embrionária (4).
Porém, é fundamental compreender: esses estudos avaliam o uso de CoQ10 antes da gravidez, em mulheres inférteis, com o objetivo de melhorar a qualidade oocitária. Esse contexto é radicalmente diferente do uso durante a gestação estabelecida. A evidência favorável à fertilidade não pode ser extrapolada para segurança fetal — são desfechos, populações e fases biológicas distintas.
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O que diz a ANVISA sobre coenzima Q10 na gravidez?
A posição regulatória brasileira sobre a coenzima Q10 na gravidez é clara e juridicamente vinculante. A Instrução Normativa ANVISA nº 28, publicada no Diário Oficial da União em 27 de julho de 2018, estabelece os limites de uso e requisitos de rotulagem para todos os suplementos alimentares comercializados no Brasil (5).
Anexo IV — Limite máximo por grupo populacional
A CoQ10 está classificada como “Não Autorizado” (NA) para gestantes. Conforme o Art. 8º da IN 28/2018:
“Nos casos em que os limites mínimos ou máximos constem como não autorizado (NA), não é permitida a indicação dos suplementos alimentares contendo esse constituinte para os respectivos grupos populacionais.”
Anexo VI — Rotulagem obrigatória
Todo suplemento alimentar contendo CoQ10 deve obrigatoriamente trazer no rótulo a frase:
“Este produto não deve ser consumido por gestantes, lactantes e crianças.”
A ausência dessa advertência constitui infração sanitária.
A norma permanece plenamente vigente, tendo sido atualizada por diversas instruções normativas posteriores (IN 76/2020, IN 102/2021, IN 336/2024, IN 361/2025, IN 418/2025), sem qualquer alteração do status da CoQ10 para gestantes.
Posição das autoridades internacionais de saúde
O posicionamento internacional é convergente com a regulamentação brasileira:
- NIH / NCCIH (National Center for Complementary and Integrative Health) (6): “A segurança da CoQ10 durante a gravidez e a lactação não foi estabelecida. O uso deve ser evitado sem orientação médica explícita.”
- Mayo Clinic (7): “Profissionais de saúde ainda não determinaram se a CoQ10 é segura durante a gravidez ou amamentação. Recomenda-se não utilizar o suplemento nessas condições sem aprovação médica prévia.”
- FDA (Food and Drug Administration) (8): A CoQ10 não é aprovada como medicamento nos Estados Unidos. É classificada como suplemento dietético, categoria que não exige avaliação de segurança pré-mercado — o que significa que a ausência de proibição americana não equivale à comprovação de segurança.
Por que a CoQ10 está sendo prescrita a gestantes brasileiras?
A disseminação do uso de coenzima Q10 na gravidez no Brasil resulta de uma combinação de fatores:
- O extrapolamento inadequado dos dados de fertilidade (pré-concepção) para o contexto gestacional.
- A interpretação equivocada de estudos observacionais que associam baixos níveis de CoQ10 a complicações obstétricas.
- A amplificação dessas informações nas redes sociais, sem filtro regulatório ou revisão crítica.
Atenção ao princípio básico da epidemiologia: associação não implica causalidade. O fato de mulheres com pré-eclâmpsia apresentarem níveis reduzidos de CoQ10 não demonstra que a suplementação previne a doença — pode ser simplesmente uma consequência da mesma disfunção fisiopatológica.
O que fazer se você está grávida e foi orientada a usar CoQ10?
Se você está grávida e recebeu orientação para usar CoQ10, converse com seu obstetra antes de qualquer decisão. Os pontos a discutir são:
- Qual é a indicação clínica específica para o seu caso?
- Existe evidência de segurança fetal para esse suplemento?
- Esse uso está em conformidade com a regulamentação da ANVISA?
A ausência de evidência de dano não é o mesmo que evidência de segurança. Em medicina fetal e obstetrícia de alto risco, o princípio da precaução é parte integrante da boa prática clínica.
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Conclusão: afinal, posso ou não usar coenzima Q10 na gravidez?
A resposta à pergunta “posso usar coenzima Q10 na gravidez?” é, do ponto de vista regulatório e científico atual: não — ao menos não como suplemento alimentar de venda livre, e não sem uma justificativa clínica individualizada e acompanhamento médico especializado.
- A ANVISA classifica esse uso como “Não Autorizado” (NA) para gestantes (Anexo IV, IN 28/2018).
- A evidência científica existente é baseada em um único RCT com limitações metodológicas significativas, sem replicação após 15 anos e sem qualquer estudo de segurança fetal.
- As principais autoridades internacionais de saúde — NIH, Mayo Clinic — são uniformes ao afirmar que a segurança na gravidez não foi estabelecida.
- A evidência positiva da CoQ10 em fertilidade/FIV refere-se ao uso pré-concepção, e não pode ser extrapolada para a gestação estabelecida.
Como especialista em Medicina Fetal e Obstetrícia de Alto Risco, minha recomendação é clara: gestantes e profissionais de saúde devem tomar decisões baseadas em evidências robustas e em conformidade com a regulamentação sanitária vigente.
A equipe do Prof. Alan Hatanaka está aguardando seu contato para iniciar a jornada de uma gravidez saudável e segura.
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Sobre o autor
Prof. Dr. Alan Roberto Hatanaka — CRM 100513 / RQE 51.384-1 | FMF nº 40017
Medicina Fetal e Obstetrícia de Alto Risco — UNIFESP/EPM
Referências bibliográficas
- Teran E, Hernandez I, Nieto B, Tavara R, Ocampo JE, Calle A. Coenzyme Q10 supplementation during pregnancy reduces the risk of pre-eclampsia. Int J Gynaecol Obstet. 2009;105(1):43–45. doi: 10.1016/j.ijgo.2008.11.033
- O’Gorman N, Wright D, Syngelaki A, Akolekar R, Wright A, Poon LC, Nicolaides KH. Competing risks model in screening for preeclampsia by maternal factors and biomarkers at 11–13 weeks’ gestation. Am J Obstet Gynecol. 2016;214(1):103.e1–103.e12. doi: 10.1016/j.ajog.2015.08.034
- Rolnik DL, Wright D, Poon LC, O’Gorman N, Syngelaki A, de Paco Matallana C, et al. Aspirin versus placebo in pregnancies at high risk for preterm preeclampsia. N Engl J Med. 2017;377(7):613–622. doi: 10.1056/NEJMoa1704559
- Lin G, Li X, Jin Yie SL, Xu L. Clinical evidence of coenzyme Q10 pretreatment for women with diminished ovarian reserve undergoing IVF/ICSI: a systematic review and meta-analysis. Ann Med. 2024;56(1):2389469. doi: 10.1080/07853890.2024.2389469
- Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução Normativa nº 28, de 26 de julho de 2018. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 27 jul. 2018; Seção 1:141. Disponível em: anvisalegis.datalegis.net
- National Center for Complementary and Integrative Health (NCCIH). Coenzyme Q10. Bethesda: National Institutes of Health; 2025. Disponível em: nccih.nih.gov
- Mayo Clinic. Coenzyme Q10. Rochester: Mayo Foundation for Medical Education and Research; 2025. Disponível em: mayoclinic.org
- U.S. Food and Drug Administration (FDA). Dietary Supplements. Silver Spring: FDA; 2024. Disponível em: fda.gov
Este texto tem caráter exclusivamente informativo e não substitui a consulta médica individual. Cada gestação é única e toda conduta deve ser discutida presencialmente com o obstetra responsável.